Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

in, Livro do Desassossego - Bernardo Soares

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Se tive que reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado.

 

Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.

 

Penso sempre, sinto sempre; mas o meu pensamento não contém raciocínios, a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima, por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinitupla e vazia. Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda de vácuo, movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada, e nas águas que são mais giro que águas bóiam todas as imagens do que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.

 

E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão por uma geometria do abismo; sou o nada em torno do qual este movimento gira, só para que gire, sem que esse centro exista senão porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros, mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.

 

E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto, o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.

 

Poder saber pensar! Poder saber sentir!

 

Minha mãe morreu muito cedo, e eu não a cheguei a conhecer...
Hoje sinto-me...: assoberbada
Rabiscado pela Mãe dos Pius às 10:59
| Comenta!
4 comentários:
De silvia a 28 de Agosto de 2009 às 16:55
ora ai está uma coisa nada boa de ler qd se está numa fase má...optaria antes pelo guardador de rebanhos...dá-me sempre a sensação de q a vida é algo tão simples e mágico
De raquel a 29 de Agosto de 2009 às 00:39
Profundo...porque raio qd estamos em baixo procuramos coisas que nos coloquem ainda um pouquinho pior???
Ânimo!!!
De Mãeee a 2 de Setembro de 2009 às 14:33
Depararmo-nos com o Livro do Desassossego quando estamos numa fase menos boa, talvez não seja a decisão mais "optimista", ..., mas também gosto muito desse quase heterónimo do Pessoa, e do livro em questão ... que nos desassossega a alma.

Muita força e ânimo. Muitos beijos a todos os Pius
De Sílvia a 7 de Setembro de 2009 às 17:00
Olá amiga, ando tão desligada que só cá vim ter agora. Vais então voltar para o continente, ainda bem!
Parabéns à tua amora e muito beijinhos para todos.

Comentar post

A Mãe dos Pius

Googla!

Pesquisa personalizada

Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

Bicaditas mais antigas

Setembro 2017

Novembro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

tags

todas as tags

blogs SAPO

subscrever feeds